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Anos 30, indústria artesanal marca início do desenvolvimento do Boa Vista

  • Internet - Canoa de uma pau só (garapuvu)

Minha vida com papai - 124 anos de seu nascimento

Hoje (22/2/2021), 124 anos do nascimento de meu pai Thomaz Silveira de Souza, um dos pioneiros do desenvolvimento do Boa Vista, recordo fatos ocorridos no início dos anos 40, que merecem espaço na história de Joinville. A partir de 1935, instalou no Boa Vista uma olaria que produzia louças de barro. Carroças e canoa de um pau só eram os meios de transporte para fazer os produtos de sua indústria artesanal chegar aos mercados.Com 11 filhos, a mão de obra familiar ajudava a impulsionar o empreendimento. As primeiras luzes do dia encontravam a família inteira; adultos, adolescentes e crianças com pés no chão, trilhando caminho lamacento com uma peça de louça em cada mão para a carregar a canoa. Thomaz, e o filho Etelvino já aguardavam o início da vazante da maré para mais uma viagem.

Abri os olhos pela primeira vez no dia 29 de julho de 1936, no bairro Boa Vista. Como todos os boavistenses nascidos na época, vim ao mundo pelas mãos de uma bondosa parteira, a Dona Geraldina. A Maternidade Darci Vargas seria inaugurada somente 11 anos depois, em 1947.

Com o passar do tempo comecei a identificar as pessoas ao meu redor; Thomaz Silveira de Souza (meu pai) e Maria Francisca de Souza (minha mãe) meus irmãos Etelvino (Mano), Herondina (Ita), Marina (Babá), Zenir (Nenú), Zilda (Ata), Mário (Bago) e Irene (Gá). Não conheci a irmã Maria de Lourdes (Zizi) chamada pelo Criador ainda criança. Antes de completar dois anos vieram ao mundo também pelas mãos de Dona Geraldina, as minhas irmãs Ondina (Onda) e Odette (Dedê). Éramos então,11 irmãos.

Meu pai, descendente de uma família de oleiros, então com 40 anos, havia trabalhado na Olaria de telhas e tijolos pertencente ao empresário Emílio Stock Sênior, no Jarivatuba e lá residira com a família, antes de meu nascimento. Durante o período juntou algumas economias e adquiriu no final de 1935 ou início de 1936, um grande terreno no Boa Vista, onde construiu uma ampla casa de madeira com sótão. Como pretendia produzir louças de barro, construiu também todas as instalações necessárias para o funcionamento de uma olaria. Foi um dos primeiros empreendedores do Boa Vista.


Aquivo JI Online/Casa da família no bairro Boa Vista

Iniciada a produção de louças de barro constatou que o mercado era promissor. Muitas famílias, principalmente de descendência açoriana preferiam louças de barro, principalmente pelo baixo preço comparados com a louça branca, de ferro, alumínio ou ferro esmaltado.

Potes e moringas para água; torradeiras (para torrar café), leiteiras, boiões, alguidares (bacias), panelas com cabo ou alças e marmitas; pratos e canecas e até urinóis (pinicos); todos os modelos produzidos em três tamanhos (pequeno, médio e grande). Produzidas de forma artesanal, depois da secagem as peças eram queimadas em fornos, depois banhadas em litargírio (óxido de chumbo) e novamente levadas ao forno para a vitrificação. Peças como vasos, eram somente queimados. Uma variedade de modelos para diferentes plantas eram produzidos com destaque para os destinados ao plantio de orquídeas com características diferentes a partir da profundidade até a quantidade de orifícios.

Contando somente com mão de obra familiar não era possível manter produção suficiente para atender o mercado. Foi então que meu pai contratou seu primo, João Jose de Souza. oleiro que residia em São José. Ele era solteiro e passou a residir em instalações independentes mas frequentava nossa mesa de refeições que já alimentava 13 pessoas entre adultos, adolescentes e crianças.

Como aumento de produção meu pai sentiu necessidade de abrir novos mercados. São Francisco do Sul com a maioria de sua população de origem açoriana, era a meta a ser conquistada. Fez uma viagem de trem para sondar o mercado e voltou satisfeito, já com alguns pedidos. Em Joinville, já abastecia cerca de uma dezenas de casas comerciais como Edgar Klein e Leopoldo Eling (avenida Getúlio Vargas), Fernando Tilp e Alfredo Boehm (rua Dr. João Colin), entre outros.

Para as entregas em Joinville, contava com o transporte em carroças de propriedade dos irmãos Ludovico Sell (Bruda) e de Alfredo Sell. Agora, como transportar louças para São Francisco do Sul passou a ser uma dificuldade e ser superada. Como nasceu e viveu parte de sua vida junto ao mar, estava habituado com a navegação em pequenas embarcações. Ao chegar no Boa Vista uma das primeiras providências foi comprar uma canoa de garapuvu (canoa de um pau só). Em fins de semana se deslocava com amigos para pescar na baia Babitonga.

Oleiros de São José-Wordpress/

Passou a abastecer o novo mercado transportando louças na canoa, tendo por companheiro o meu irmão Etelvino. No Boa Vista, ao lado da propriedade existia um estreito caminho (atual rua Jaguarão) que terminava junto a uma gamboa. Ali meu pai possuía um rancho coberto de palha que abrigava a canoa. Ele programava as viagens de acordo com a tábua de marés. Quando iniciava a vazante o carregamento da canoa iniciado antes do nascer do sol com a participação de toda a família, devia estar concluído. Nem sempre havia vento para enfunar a vela, então remar era preciso; a força vazante proporcionava menos esforço até atracar no Mercado de São Francisco do Sul.

Levar as louças até o porto lembrava o trabalho de formiguinhas. Com 5 ou 6 anos eu era o menor ajudante. Com os pés no chão, em alguns trechos com lama até os joelhos, e uma pequena peça de louça em cada uma das mãos. Com as mãos ocupadas era impossível impedir as doloridas picadas de mosquitos ao longo do caminho. Além da pequena ajuda, um grande ensinamento para a vida futura e um aprendizado de amor ao trabalho.

Iniciada ao amanhecer, a viagem terminava no fim da tarde quando a canoa aportava no Boa vista. Em algumas casas comerciais meu pai fazia a troca de louças de barro por alimentos para sustentar a numerosa prole. A embarcação que partia carregada de louças, voltava sempre com quantidades de farinha, carne seca, feijão, arroz, incluindo o sabão que minha mãe usava para lavar nossas roupas no ribeirão.


Cortina do Passado/Mercado Municipal São Francisco do Sul

Como era reduzida a capacidade de carga da pequena canoa, apesar de carregada até a máxima redução da linha d'gua, em algumas ocasiões meu pai contratava experientes pescadores do Boa Vista para o transporte de louças em suas canoas. As viagens de meu pai juntamente com meu irmão tinham uma frequência semanal.

Conhecedora dos perigos do mar, minha mãe entrava em estado de aflição cada partida. Devota de São Pedro, ao voltar para casa depois de desejar boa viagem ao marido e ao filho, ela se ajoelhava diante de um quadro com moldura do santo fazia orações implorando proteção aos viajantes do mar. Quando a tarde começava a chegar ao fim ela não desviava os olhos do caminho do porto que podia ser visto de nossa casa.

Nas tardes de verão, ela olhava para o céu e quando notava a presença de nuvens escuras anunciando tempestade sua preocupação aumentava. Corria para o quarto onde um quadro com a moldura de São Pedro tinha lugar reservado, acendia velas e implorava a ajuda do santo que fervorosamente chamava de glorioso São Pedro, para proteger o marido e o filho ainda no mar.

No meio da tarde do dia mais longo vivido pela minha família desabou um temporal com trovoada, chuva e fortes rajadas de vento. Minha mãe sabia que naquele horário pai e filho estariam no mar iniciando a viagem de volta. Sabia também que a pequena canoa não resistiria a tempestade e mar revolto. Muito preocupada dirigiu-se ao quarto, acendeu velas e ajoelhou-se diante da imagem de São Pedro, implorando proteção.

Foi uma longa noite sem dormir. Sempre que fechava os olhos era despertada por maus presságios. O nascer do novo dia encontra minha mãe em estado desespero, como se vivesse um pesadelo acordada. A manhã já avançava quando ela dirigiu novo olhar para o caminho do porto e nada de avistar os dois.

 Abatida mas sempre procurando esconder seu desespero, dirigiu-se mais uma vez ao quarto e aos prantos diante da moldura de São Pedro lembrou o primeiro milagre creditado ao santo. Poucos anos depois de seu casamento passou um homem vendendo quadros com molduras de santos. Ela ficou encantada com um quadro de São Pedro tendo às mãos as chaves do céu. Ela lamentou não ter dinheiro. O vendedor aproveitou para forçar a venda e propôs que ficasse com o quadro para pagar oportunamente. Como a situação em que viviam indicava que tão cedo não haveria dinheiro suficiente para o pagamento, insistiu em não aceitar. O vendedor continuou insistindo até colocar o quadro nas mãos de minha mãe e dizer que tão cedo não voltaria para cobrar e mesmo assim se ela ainda não tivesse dinheiro, ficaria para outra oportunidade qualquer. O vendedor nunca mais voltou

Mergulhada por instantes no primeiro milagre de São Pedro, sabendo que ela não tinha dinheiro o santo fez com que o cobrador nunca voltasse. Demorou para perceber uma grande movimentação na frente da casa. Foi aos prantos que deixou o quarto depois de um olhar para a moldura do santo pedindo piedade. Não abriu a porta da frente, apenas olhou pela janela. O que seus olhos viram sua mente jamais esqueceu. Continua na postagem de quarta-feira (24/2).


Arquivo JI OnlineAry Silveira de Souza - Jornalista e escritor




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